Durante boa parte da vida, eu imaginei que a
minha felicidade só estaria completa se tivesse, ao meu lado, uma pessoa que me
amasse verdadeiramente e que dividisse comigo as alegrias e as agruras da vida.
Sempre fui passional desmedido, sempre entrei de cabeça nos relacionamentos...
me chafurdava mesmo, ainda naqueles que pareciam não ir para frente. Hoje,
meditando sobre essas questões - e fazendo uma auto-análise, também -, descobri
porque eu, passional desenfreado ou simplesmente alguém que ama e se entrega
demais, fui sempre definido - por entendedores e amadores - como alguém a quem
falta amor próprio.
Eu me envolvo em um enlace amoroso e me
entrego com extrema facilidade, faço apostas e acredito veementemente que é
aquela a pessoa reservada pelo destino. Vivo uma quimera. Isso tudo, sem me dar
conta de que se tal romance não der certo, eu serei o único prejudicado nessa
história. Afinal de contas, o outro, foi-se embora. E, para mim, só resta
recolher os cacos daquilo que se tornou o meu coração e tentar refazê-lo
novamente. Não obstante, num determinado tempo, pareço esquecer de toda a dor e
sofrimento gerados pelas expectativas e ilusões que cultivei - e mais uma vez
volto a me entregar a um outro alguém; permitindo, de novo, que este
recém-chegado venha e destrua tudo aquilo que construí com tanta dificuldade.
Parece um hábito meu, um circulo vicioso mesmo, permitir sempre que alguém
venha e desestruture o alicerce que, com determinação, pranto, superação e
perseverança, eu alcancei.
Geralmente é num olhar sedutor, num sorriso
maroto, num gesto carinho ou numas poucas palavras ardilosas, que entrego a um
amável desconhecido - que parece se ajustar tão lindamente a tudo o que sempre
desejei noutra pessoa - a possibilidade de me retribuir com a miséria, a
impotência, a solidão e o desamparo. Quando digo miséria, me refiro a um
sentimento de vazio deixado, bastante recorrente, aliás, nesses casos; onde,
mesmo diante de realizações profissionais ou familiares, êxitos obtidos ou conquistas
e metas antes desejadas e agora alcançadas... Nada parece satisfazer. Tudo isso
se torna pouco importante, a não ser o desejo vivo e arraigado de estar ao lado
daquele com quem um dia fiz planos (onde, analisando melhor, vejo que talvez EU
tenha feito muitos planos, e não NÓS, como um dia imaginei). É como se só a
presença "daquela" pessoa fosse o bastante, fosse suficientemente
possível para sanar e preencher a lacuna existente no meu interior.
Confesso que hoje eu dou razão às pessoas
que um dia tentaram me abrir os olhos dizendo que eu precisava me amar um pouco
mais, me valorizar... Não conseguia ver onde eu errava e nem porque estaria eu,
minimizando a mim mesmo, por conta deste amor demasiado. Só hoje eu tenho a
consciência de que antes de me envolver com alguém, é preciso conhecer bem a
outra pessoa. Que antes de me doar e me machucar, eu preciso saber o solo em
que estou pisando. E jamais, depositar a minha felicidade nas costas de alguém
ou acreditar que dependo dela para ser feliz.
De olho nisso, é bem verdade que eu não
posso afirmar categoricamente que eu mudei, assim, da água para o vinho, da
noite para o dia. Tudo isso é um processo, é uma construção de mim mesmo. E com
certeza essa mudança requer tempo. Mas, não resta dúvida, que, sabendo onde
estou errando, fica muito mais fácil evitar novos deslizes e maiores
inquietações.
Alexandro Paiva.
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